Com duas manchetes preocupantes um dos principais jornais impressos do RN registrou na última semana o aumento desenfreado dos crimes violentos praticados no Estado.
Uma constatação, a priori, que vem sendo gradativamente comprovada, por meio de estudos e dados estatísticos, é que onde menos há investimentos em infraestrutura e equipamentos sociais, certamente os índices criminais aumentam. Infelizmente no RN não tem sido diferente.
Conforme os números da violência em Natal, há uma divisão social do crime violento. Ou seja, nas áreas mais carentes da capital prevalecem os números mais elevados de homicídio.
O que há por trás dessa constatação?
Um estudo de compilação de dados acerca da temática, denominado "Mapa da Violência", que é organizado pelo sociólogo Julio Jacobo, editado desde 2006 no país e podem ser acessados neste link, demonstra um crescimento acelerado dos crimes violentos e as circunstâncias que os cercam.
Fonte:
Disponível em: http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/rn-atinge-marca-de-1-900-mortes-violentas/366782. Acesso em 19 Dez 2016.
Disponível em: http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/rn-registra-uma-morte-a-cada-4h24/366875. Acesso em 20 Dez 2016.
Depois de um bom período ausente (em virtude de uma série de ocupações: trabalho, estudo, etc.) retomo minhas postagens, sobretudo a partir da perspectiva de que este canal deve sempre estar aberto para reflexões e discussões. Aos que se aventurarem serão sempre muy bienvenidos!
O artigo que trago à discussão é infelizmente mais uma constatação feita pelos órgão oficiais, consignando que a maioria de jovens que morrem em virtude de uma série de fatores que incrementam a violência no RN são jovens, negros e, sobretudo pobres.
O mapeamento feito pela SESED demonstra haver uma limpeza social e étnica daqueles que ao mesmo tempo que são vítimas, são algozes, pois se encontram em um estado de vulnerabilidade social difícil de ser revertido. Nesse sentido, sofrem e praticam homicídios às margens da ausência do Estado.
Em dias de luta pela redução da maioridade penal, uma política de encarceramento que pouco ou quase nada (re)socializa, transformando os internos em marginais altamente perigosos.
Abaixo a matéria da Tribuna do Norte para que tiremos nossas próprias conclusões se o Estado e a própria sociedade não estão se omitindo a esse estado de coisas.
A marca da discriminação racial está representada nas estatísticas da violência no Rio Grande do Norte. O perfil majoritário das vítimas não mudou entre 2014 e 2015: homem, jovem, pobre, negro ou pardo. Este ano, o número de pessoas negras mortas é quase o dobro dos assassinados de cor branca. Somados, negros e pardos representam 82,71% das vítimas de homicídios neste ano - ou seja, oito em cada dez mortos, segundo levantamento da Informações Estatísticas e Análise Criminal (Coine) da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social. No Estado, aponta mapa da Secretaria da Igualdade Racial e do IBGE, 5,2% das pessoas se declaram negros e 52,5%, pardos.
Marcelo LimaA Coine/RN faz o monitoramento espacial dos assassinatos no RN, identificando onde a violência cresce e onde ela recua
O mesmo levantamento mostra que apenas as mortes violentas de pessoas pardas cresceram em comparação com o ano passado: 14%. Nos outros segmentos étnicos houve alta redução. Por outro lado, das 1.649 mortes violentas deste ano, 44,75% são de jovens entre 12 e 24 anos - ou seja, quatro em cada dez assassinatos. O percentual se manteve praticamente estável se comparado com 2014: 44,60%. Assassinatos no Rio Grande do Norte 2015 - 1.649 mortes 2014 - 1.762 mortes Assassinatos por etnia Parda 816 (49,48%) Negra 548 (33,23%) Branca 278 (16,85%) Ignorados 7 (0,44%)
Assassinatos por gênero Homens 1540 (93,38%) Mulheres 109 (6,61%)
Dados: Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análises Criminais (Coine/RN) da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Sesed/RN). Para ler a matéria completa clique aqui.
Às vezes me pergunto: com tantos brasileiros (em números absolutos, em média 50 mil homicídios, por anos, a cada 100 mil habitantes), sendo impedidos de viverem em condições mínimas de subsistência, fico perplexo quando a nossa mídia e a sociedade brasileira se mobilizando contra mortes em outros países, que não chegam a 1% das que ocorrem no Brasil. Para ver dados na íntegra clique aqui
De forma alguma (enfatizo) desejamos a morte de qualquer pessoa, mas será que não damos destaque demais aos outros, enquanto aqui estamos literalmente nos digladiando???!!!
Para encerrar faço uma pequena citação do livro o "Vigiar e punir", de Michel Foucault, no qual ele faz uma advertência quanto à punição generalizada; "que as penas sejam moderadas e proporcionais aos delitos". (FOUCAULT, 2014, p.73) e um vídeo de Edson Gomes: "somos nós!"
Fontes: http://tribunadonorte.com.br/noticia/no-rn-82-7-das-va-timas-de-homica-dio-sa-o-negros-ou-pardos/334363. Acesso em 02/Jan/2015.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão (Trad).Raquel Ramalhete. Petróplis, RJ; 2014.
Ainda em férias, mas sempre de olho nos acontecimentos...
Lendo a matéria do DN, que segue abaixo, temos um termômetro de como os brasileiros estão se sentido acerca da segurança no país. Como temos dito, a segurança é um conceito muito subjetivo, algo que varia de pessoa para pessoa, dependendo de onde ela mora, qual sua condição social, seu nível de escolarização, entre outros aspectos que podem influenciar, significativamente, nessa percepção.
Outro fator preponderante nos dias atuais é influência exercida pelos aparelhos midiáticos, em especial a TV, principalmente tomando-se como referência àquelas empresas que lançam mão dos programas apelativos, de cunho eminentemente sensacionalistas, que incutem no imaginário da população, que vivemos num Estado caótico, that is,uma verdadeira guerra (SOUZA FILHO, 2001). É bem verdade que em algumas megalópoles (Rio, São Paulo...) e metrópoles (Recife, Fortaleza, etc.) há realmente áreas com altos índices de criminalidade, mas esses casos devem ser vistos de forma isolada, pois são aglomerados populacionais, onde o Estado é quase imperceptível e a miséria extrema, aliada à falta de educação, saúde, emprego, habitação e às drogas, sobretudo o crack, cooptam cada dez mais um exército de excluídos para o mundo da violência e criminalidade.
Vale a pena conferir os dados recentes do IPEA, acerca da percepção de nós brasileiros, não apenas sobre segurança, mas sobre as instituições que com ela diretamente trabalham, das quais (infelizmente) uma parcela significativa da população não confia (CALDERA,2000).
Referências: SOUSA FILHO, A.Medos, mitos e castigos. 2a. ed. São Paulo: Cortez Editora, 2001. CALDEIRA, Teresa P. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34/Edusp. 2000.
Brasil Edição de domingo, 8 de julho de 2012
Brasileiros temem assalto com arma de fogo
Seis em cada dez brasileiros têm muito medo de assalto à mão armada e assassinato
Brasília - Pesquisa de opinião divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou na sexta-feira a segunda rodada de pesquisa sobre segurança pública feita pelo Sistema de Indicadores de Percepção Social, criado pelo instituto. Desta vez, 3.799 pessoas foram entrevistadas em todas as regiões do país. A cada grupo de dez brasileiros, pelo menos seis têm "muito medo" de assalto à mão armada, assassinato e arrombamento da residência, conforme apurado pela pesquisa. Mais da metade sentem "muito medo" de sofrer agressão. O percentual de "nenhum medo" em todos os quesitos (assalto à mão armada, assassinato e arrombamento da residência) é em torno de 10%, com exceção do tema sofrer agressão, em que o percentual é 18,2%.
Eduardo Maia/DN/D.A Press
As mulheres se sentem menos seguras que os homens. Apenas 7,8% das entrevistadas disseram não sentir "nenhum medo" de assalto à mão armada, enquanto 16,9% dos homens têm a mesma sensação. Metade dos homens entrevistados afirma ter "muito medo" de assalto à mão armada, enquanto três quartos das mulheres têm a mesma intranquilidade. A amostra da pesquisa permite comparações entre as regiões. Em todos os quesitos, o Nordeste (com mais de 70% das respostas indicando "muito medo") lidera os temores de violência.
Além da sensação de insegurança, a pesquisa ouviu a opinião dos entrevistados sobre as instituições policiais. Apenas a Polícia Federal (PF) teve índice acima de 10% na resposta "confia muito". As polícias civis e militares dos estados, polícias com os maiores efetivos e mais próximas do cotidiano dos cidadãos, atingiram apenas 6% das respostas "confia muito". Cerca de 9% disseram "confiar muito" na Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Em cada dez entrevistados, seis concordam que a PF e a PRF realizam "seu trabalho com competência e eficiência". Mais da metade dos entrevistados em todo o país discordam da afirmação de que a "Polícia Civil realiza investigações sobre crimes de forma rápida e eficiente". A maioria também discorda que "a Polícia Militar (PM) aborda as pessoas de forma respeitosa".
Menos de 45% discordam que a PM "atende às emergências de forma rápida e eficiente". Segundo o Ipea, a percepção negativa das pessoas declaradas "não-brancas" em relação às polícias é 5% acima daquelas declaradas "brancas". Mais de 63% de todos entrevistados afirmaram que "os policias no Brasil tratam as pessoas com preconceito". Apesar desses indicadores, a maioria da população ainda confia na polícia. Somente cerca de um quinto (20%) disse "não confiar" nas polícias militares e nas polícias civis, enquanto 15% avaliaram negativamente a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal.
Dos entrevistados, 48,4% afirmaram "ter procurado a polícia por algum motivo e passado por um atendimento policial". Desses, 74,1% fazem "avaliação positiva" dos atendimentos policiais. A desigualdade social, a falta de investimento em educação e o aumento do tráfico de drogas foram apontados como as principais causas da criminalidade. O crescimento do comércio ilegal de entorpecentes foi a principal dificuldade enfrentada pelos policiais.
A maioria dos entrevistados discorda que os policiais no Brasil "recebem boa formação e são bem preparados". Mais de um quarto dos entrevistados afirmam que ser policial é uma péssima opção de trabalho.
Saudações natalinas, ou para os mais cosmopolitas, Merry Christmas!
Conforme alguns estudiosos em demografia, sociólogos e antropólogos urbanos, a densidade demográfica pode funcionar como fator catalisador de violência e criminalidade. Aglomerados populacionais sem a égide do Estado estão propensos a marginalizar seus integrantes, especialmente pela falta de oportunidades a que estão submetidos os que nesses espaços habitam.
Em postagens anteriores lançamos mão de alguns autores que teorizam acerca da marginalização que uma parcela significativa da nossa população foi submetida quando da "libertação do escravos", nos idos de 1889. Nessa perspectiva, assevera Souza (2003) que os negros foram liberados dos seus grilhões, após a assinatura da Lei Aurea, porém as amarras sociais perduram até hoje, e que a maioria dessa população vive em comunidades carentes, denominadas de favelas, que nada mais são do que uma reprodução ampliada das senzalas antepassadas.
Atualmente, com o desenvolvimento de um certo nível de conscientização, mesmo que escalas bem pequena, algumas Organizações Sociais têm tentado mudar esse estado de coisas. A CUFA (http://www.cufa.org.br/) é uma dessas ONGs que desempenha papel significativo na luta político-social para emancipação não apenas da população afro-descendente, mas de toda essa camada socialmente marginalizada que sobrevive nas favelas brasileiras, mundialmente conhecidas slums.
Alguns autores defendem que favelas não são guetos, pois apesar de apresentarem as mesmas características daqueles, não funcionam com locus segregador, apesar da grande dificuldade que têm seus integrantes de transitarem socialmente entre áreas sociais distintas (WACQUANT, 1997).
Certamente, o que não há controvérsias nessas teorias é que espaços dessa natureza, principalmente em países onde o Estado é ausente, o estado paralelo se instala cooptando crianças, jovens, mulheres e adultos para o mundo da marginalização, como temos veiculado nesse canal de discussão.
Logo abaixo segue um matéria da revista Carta Capital, que detalha estudos do IBGE asseverando que essas comunidades carentes, na verdade são cidades imensas em tamanho e em problemas sociais, pois muitas delas chegam a ter mais de 50 mil habitantes. Vale apena conferir!
Rocinha é a maior favela do Brasil
Thais Leitão*
Rio de Janeiro – Na comunidade da Rocinha, em São Conrado, zona sul do Rio de Janeiro, viviam 69.161 pessoas em 2010, o que garantiu ao local o posto de maior favela do país. Os moradores ocupam 23.352 domicílios, que têm em média três habitantes cada.
Rocinha, a maior favela do País. Foto: Fábio Motta/AE
Segundo dados do levantamento Aglomerados Subnormais – Primeiros Resultados, divulgado na quarta-feira 21 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na lista das favelas mais populosas do Brasil, aparecem, em seguida, o Condomínio Sol Nascente, em Ceilândia, cidade do Distrito Federal, com 56.483 moradores; e Rio das Pedras, na capital fluminense, com 54.793.
WACQUANT, L. 1997. A “underclass” urbana no imaginário social e científico norte-americano. Estudos Afro-asiáticos, Rio de Janeiro, n. 31, p. 37-50, out